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Nefrectomia parcial robótica: como preservar parte do rim?

Um homem de 58 anos faz uma tomografia de abdome por causa de uma dor nas costas que, no fim, era muscular. O laudo volta com uma frase inesperada: “lesão sólida de 3 cm no polo inferior do rim direito”. Ele não sente nada no rim. A dor nas costas nem era de lá.

Esse é o roteiro mais comum de descoberta de um tumor renal hoje. E é também o motivo pelo qual tantos desses pacientes podem manter o rim: tumores pequenos, achados por acaso, costumam ser candidatos à nefrectomia parcial, a cirurgia que retira só o tumor e uma margem de tecido sadio. A seguir, como imagem, dados e robô trabalham juntos para isso funcionar.

 

Por que tirar só um pedaço, e não o rim inteiro

Durante décadas, a regra para tumor renal era a nefrectomia radical: retirar o órgão todo. O problema apareceu anos depois, nos pacientes. Perder um rim aumenta o risco de doença renal crônica, e a doença renal crônica aumenta o risco cardiovascular.

Quando a cirurgia parcial é tecnicamente possível, os resultados no controle do câncer são comparáveis aos da radical, e a função renal fica mais protegida. É por isso que a preservação renal na cirurgia de tumores virou o objetivo padrão sempre que o tamanho e a posição da lesão permitem. O Dr. Leonardo Borges descreve justamente essa meta: retirar o tumor preservando o máximo possível de rim normal.

 

O ponto de partida é um conjunto de dados

Antes de qualquer corte, o cirurgião precisa responder a perguntas geométricas: quão grande é o tumor, quanto dele está dentro do rim, a que distância fica do sistema coletor (as estruturas que recolhem a urina) e dos vasos principais.

Essas respostas saem de uma tomografia ou ressonância com contraste, em cortes finos. Com elas, muitos serviços calculam escores de complexidade anatômica, como o R.E.N.A.L. nephrometry score, que soma pontos para tamanho, profundidade, proximidade do sistema coletor, posição anterior ou posterior e localização em relação às linhas polares.

Variável da imagemO que ela indica ao cirurgião
Diâmetro do tumorTumores até 4 cm são os candidatos mais clássicos à cirurgia parcial
Quanto o tumor projeta para fora do rimTumores mais exofíticos são mais fáceis de retirar
Distância do sistema coletorProximidade aumenta a chance de precisar reconstruir a via urinária
Relação com artéria e veia renalDefine o risco de sangramento e o planejamento do clampeamento
Número de artérias renaisArtérias extras mudam a estratégia de controle vascular
Telas exibindo imagens de exames de ressonância em ambiente hospitalar
As imagens em cortes finos alimentam o planejamento e, em alguns serviços, reconstruções tridimensionais. Foto: Charlss Gonzhu / Pexels

 

Da pilha de cortes ao modelo 3D

Uma tomografia é, na essência, uma pilha de imagens bidimensionais. Softwares de segmentação separam rim, tumor, artérias, veias e sistema coletor em cada corte e empilham o resultado num modelo tridimensional que o cirurgião pode girar na tela.

Alguns centros imprimem esses modelos em 3D ou os sobrepõem à imagem do console robótico. O ganho principal não é estético. O modelo mostra quais ramos da artéria nutrem a região do tumor, o que permite planejar um clampeamento seletivo, interrompendo o sangue só daquela parte do rim.

O mesmo princípio de quem trabalha com dados: a informação já estava na tomografia. A reconstrução só organiza o que estava espalhado em centenas de cortes num formato que a mente humana processa rápido.

Algoritmos de inteligência artificial para segmentação automática estão em estudo e já aparecem em produtos comerciais, mas a revisão por radiologista e cirurgião continua obrigatória. Erros de interpretação em exames são um tema conhecido, como mostra o texto sobre onde a IA costuma errar com exames.

 

Dentro do centro cirúrgico: o tempo é a variável crítica

Na nefrectomia parcial robótica, a sequência típica é:

  1. Acesso ao rim por pequenas incisões e liberação da gordura ao redor.
  2. Localização do tumor, muitas vezes com ultrassom intraoperatório quando ele está escondido no parênquima.
  3. Controle dos vasos: clampeamento da artéria renal ou de ramos seletivos.
  4. Retirada do tumor com uma fina margem de tecido saudável.
  5. Sutura do leito e, se necessário, do sistema coletor (a renorrafia).
  6. Liberação do fluxo sanguíneo e conferência do sangramento.

Entre os passos 3 e 6 o rim fica sem circulação, a chamada isquemia quente. Quanto mais curto esse tempo, melhor para a função renal. Aqui a plataforma robótica pesa: o punho articulado dos instrumentos torna a sutura mais rápida e precisa num espaço apertado, o que encurta a isquemia.

Alguns sistemas oferecem ainda imagem por fluorescência com um corante injetado na veia, que mostra em verde o tecido com fluxo sanguíneo. Isso ajuda a confirmar se o clampeamento seletivo realmente isolou a área do tumor.

Mãos de cirurgiões durante procedimento em sala de cirurgia
O controle do tempo de isquemia depende da coordenação da equipe tanto quanto do equipamento. Foto: Skip Class / Pexels

 

Os limites da técnica

Nem todo tumor é candidato. Lesões grandes, muito centrais ou que invadem a veia renal geralmente exigem a cirurgia radical. Em pacientes idosos ou com muitas doenças, tumores pequenos podem ser apenas acompanhados com exames, ou tratados por ablação com agulha.

Há ainda os casos em que a cirurgia parcial é obrigatória, mesmo difícil: pessoas com um só rim, tumores nos dois lados ou função renal já reduzida. Retirar o órgão inteiro nesses pacientes pode levar à diálise. É nesse grupo que a experiência com tumores complexos e com sutura rápida faz mais diferença.

A nefrectomia parcial também tem riscos próprios: sangramento tardio e vazamento de urina pelo ponto de sutura do sistema coletor. Esses riscos crescem com a complexidade do tumor, e é exatamente isso que os escores de imagem tentam prever.

Para entender a dimensão do câncer de rim no conjunto dos tumores do país, o INCA publica estimativas de incidência periodicamente.

 

O que isso muda na prática para quem recebeu o laudo

A primeira consequência é que a pergunta “vou perder o rim?” tem resposta antes da cirurgia, e ela vem da imagem. Peça ao urologista para explicar o escore de complexidade do seu tumor e por que a técnica proposta é a indicada.

A segunda é que a experiência do cirurgião com casos complexos muda o leque de opções. Um especialista em cirurgia robótica renal com formação em uro-oncologia consegue oferecer a cirurgia parcial em tumores que outro serviço trataria com retirada do rim inteiro. Leonardo Borges trabalhou de 2010 a 2018 no grupo de uro-oncologia do Hospital das Clínicas da FMUSP e no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, e tem formação específica em cirurgia robótica.

A cirurgia robótica para câncer de rim é uma das aplicações em que a tecnologia robótica na urologia mais se justifica, pela combinação de dissecção delicada e sutura sob pressão de tempo. No consultório de Leonardo Borges, a nefrectomia parcial robótica aparece entre as opções para o tratamento de tumores renais selecionados.

O próximo passo é levar o CD ou o link das imagens originais à consulta, e não só o laudo impresso. É nas imagens que o planejamento acontece.