Modelos preditivos em saúde mental: onde a ética começa

Por BuildBase

10 de fevereiro de 2026

O uso de modelos preditivos em saúde mental vem crescendo à medida que dados clínicos, comportamentais e contextuais passam a ser coletados e analisados de forma sistemática. Algoritmos capazes de identificar padrões de risco prometem apoiar decisões complexas, antecipar crises e otimizar recursos. No entanto, esse avanço tecnológico traz consigo uma série de implicações éticas que não podem ser tratadas como etapa posterior.

Diferentemente de outros domínios, a saúde mental lida com informações sensíveis, subjetivas e fortemente influenciadas por fatores sociais. Um erro de classificação ou uma inferência enviesada pode ter consequências profundas na vida de um indivíduo. Por isso, a pergunta central deixa de ser apenas se o modelo funciona, e passa a ser como, para quem e sob quais critérios ele opera.

É nesse ponto que ética, governança de dados e engenharia de sistemas se encontram. Modelos preditivos não são entidades neutras; eles refletem escolhas feitas ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento, desde a coleta de dados até a definição de limiares de risco. Cada decisão técnica carrega implicações morais e sociais.

Este artigo discute onde a ética começa nos sistemas preditivos aplicados à saúde mental, explorando governança de dados, vieses, critérios técnicos e mecanismos de auditoria. O foco está na responsabilidade compartilhada entre desenvolvedores, instituições e profissionais que utilizam essas ferramentas.

 

Avaliação de risco e decisões sensíveis

Em contextos nos quais modelos preditivos são utilizados para apoiar decisões críticas, como a internação involuntária, a margem de erro aceitável é extremamente reduzida. Um sistema que sinaliza risco elevado pode influenciar diretamente intervenções que afetam a liberdade e a autonomia do indivíduo. Por isso, os critérios de avaliação precisam ser tecnicamente sólidos e eticamente justificados.

Do ponto de vista técnico, a definição de variáveis de entrada, pesos e limiares de decisão é determinante. Dados incompletos, desatualizados ou mal contextualizados tendem a produzir previsões distorcidas. Em saúde mental, onde sintomas e comportamentos variam ao longo do tempo, a rigidez excessiva do modelo pode gerar falsos positivos ou negativos.

Eticamente, é fundamental reconhecer que o modelo não substitui o julgamento humano. Ele atua como ferramenta de apoio, oferecendo probabilidades e tendências, não verdades absolutas. A decisão final deve permanecer sob responsabilidade de profissionais qualificados, capazes de contextualizar os resultados algorítmicos.

Ignorar essa distinção entre suporte e decisão é um dos principais riscos éticos. Quando o sistema passa a ser visto como autoridade incontestável, abre-se espaço para automatização indevida de escolhas que exigem sensibilidade clínica e responsabilidade social.

 

Origem dos dados e vieses estruturais

Modelos utilizados em uma clínica para drogados dependem fortemente da qualidade e da representatividade dos dados históricos. Se o conjunto de dados reflete desigualdades sociais, práticas institucionais questionáveis ou amostras enviesadas, o modelo tende a reproduzir e amplificar essas distorções.

Vieses podem surgir de diversas fontes. Registros clínicos incompletos, subnotificação de determinados grupos ou critérios diagnósticos inconsistentes ao longo do tempo comprometem a neutralidade do sistema. Mesmo decisões aparentemente técnicas, como exclusão de outliers, podem ter impacto desproporcional sobre populações específicas.

Do ponto de vista ético, é insuficiente alegar que o modelo apenas reflete a realidade observada. Desenvolvedores e gestores têm a responsabilidade de identificar, medir e mitigar vieses conhecidos. Isso inclui análises estatísticas específicas e testes de desempenho segmentados por grupos relevantes.

Sem esse cuidado, sistemas preditivos correm o risco de reforçar estigmas e legitimar práticas discriminatórias sob o rótulo de objetividade algorítmica. A ética começa, portanto, na curadoria consciente dos dados utilizados.

 

Critérios técnicos e transparência algorítmica

Quando modelos são empregados para apoiar decisões associadas à internação involuntária, a transparência deixa de ser uma virtude opcional e se torna um requisito ético. Profissionais e instituições precisam compreender, ao menos em nível funcional, como o sistema chega às suas recomendações.

Modelos de alta complexidade, como redes neurais profundas, apresentam desafios adicionais nesse aspecto. Embora possam oferecer maior precisão, sua interpretabilidade é limitada. Isso dificulta a explicação de decisões e a identificação de falhas específicas, o que é problemático em contextos sensíveis.

Uma abordagem ética envolve equilibrar desempenho e explicabilidade. Sempre que possível, devem ser priorizados modelos cujos critérios possam ser auditados e comunicados de forma clara. Quando modelos complexos são utilizados, mecanismos adicionais de explicação e validação se tornam indispensáveis.

A transparência também se estende à documentação técnica. Descrever premissas, limitações e cenários de uso inadequado é parte integrante da responsabilidade do desenvolvedor. O silêncio sobre essas questões transfere riscos para quem opera o sistema e para quem é impactado por ele.

 

Responsabilidade compartilhada e uso institucional

No contexto da internação dependente químico, a adoção de sistemas preditivos envolve múltiplos atores. Desenvolvedores criam o modelo, instituições o contratam e profissionais o utilizam na prática clínica. A ética do sistema depende da articulação responsável entre todos esses níveis.

Instituições têm o dever de avaliar criticamente as ferramentas que adotam. Isso inclui verificar validações independentes, compreender limitações e garantir treinamento adequado das equipes. A simples aquisição de tecnologia não exime a organização de responsabilidade sobre seus efeitos.

Profissionais, por sua vez, precisam manter postura crítica frente às recomendações algorítmicas. Questionar resultados incoerentes, relatar falhas e recusar uso inadequado são práticas éticas fundamentais. O uso acrítico da tecnologia fragiliza a tomada de decisão.

Já os desenvolvedores devem considerar o contexto de aplicação desde a fase de projeto. Ignorar o impacto real das previsões na vida das pessoas é uma forma de negligência ética, mesmo que o código funcione conforme especificado.

 

Auditoria, monitoramento e governança contínua

A implementação de modelos em uma clínica de recuperação não encerra o ciclo ético do sistema. Pelo contrário, o uso em produção exige auditoria contínua, monitoramento de desempenho e revisão periódica dos critérios adotados. Modelos podem degradar ao longo do tempo à medida que o contexto muda.

Auditorias técnicas devem avaliar não apenas métricas tradicionais, como acurácia, mas também impactos diferenciados entre grupos. Monitorar taxas de erro por perfil ajuda a identificar vieses emergentes e a ajustar o sistema antes que danos se acumulem.

A governança de dados é outro pilar central. Definir quem pode acessar informações, por quanto tempo e com quais finalidades é essencial para proteger a privacidade e manter a confiança dos usuários. Políticas claras reduzem riscos legais e éticos.

Por fim, a ética se consolida quando há abertura para revisão e correção. Sistemas preditivos em saúde mental devem ser tratados como instrumentos vivos, sujeitos a aprimoramento constante. A responsabilidade, nesse cenário, não é um evento pontual, mas um compromisso permanente com transparência, cuidado e respeito à complexidade humana.

 

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